A direção da Inmensa Editorial manifesta seu profundo pesar pela morte de Conceição Lima ocorrida na manhã de hoje em São Tomé e Príncipe, na África, e se solidariza, neste momento doloroso, com seus familiares e amigos.
Conceição Lima é um dos principais nomes do catálogo da Inmensa Editorial radicados em África. Seu livro “O útero da casa”, com o qual estreou em 2004, foi publicado pela Inmensa Editorial na Coleção Infame Ruído 2024.
Principal voz da poesia santomense neste século, Conceição Lima era também jornalista e tradutora com destacada atuação no seu país, em outros países africanos, na Europa e nas Américas do Sul e Norte.
Leia texto de apresentação ao livro O útero da casa, publicação de Conceição Lima pela Inmensa Editorial, escrito por Anelito de Oliveira

O POEMA TALHADO NA HISTÓRIA
Anelito de Oliveira
A são-tomense Conceição Lima se destaca entre as grandes vozes da lírica que se produz nos países africanos de língua oficial portuguesa dos anos 1980 para cá. Sua estréia em livro se deu tardiamente, depois de duas décadas publicando em periódicos diversos e antologias dentro e fora da África. Estreou exatamente com este volume, publicado pela portuguesa Editorial Caminho em 2004, portanto há 20 anos, que agora, num gesto (também) celebrativo, temos a honra de acolher na Coleção Infame Ruído. O útero da casa nasceu consagrado, com prefácio de Inocência Mata, eminenente professora e pesquisadora da Universidade de Lisboa, também nascida em São Tomé e Príncipe. Neste volume, primeira edição brasileira d´O útero da casa, apresentamos, como posfácios, o texto de Mata, bem como o texto que a professora e pesquisadora brasileira Naduska Mário Palmeira escreveu para a segunda edição do livro lançada em 2012 também em Portugal. São textos que dão a justa medida do lugar que a poesia de CL ocupa na dinâmica literária são-tomense, que colocam em relevo seus elementos históricos, estéticos e ideológicos. Contribuem especialmente para que compreendamos um dado: por que, nas últimas duas décadas, o reconhecimento da grandeza de Conceição Lima se deu de modo inversamente proporcional à quantidade de livros publicados. Foram apenas três: A dolorosa raiz do micondó, de 2006 (publicado no Brasil pela paulistana Geração Editorial em 2012), e O país de Akendenguê, ambos publicados pela Editorial Caminho em Portugal, e Quando florirem salambás no tecto do pico, publicado no início deste 2024 pela mineira Mazza Edições.
O número sempre crescente de estudos sobre a obra de Conceição Lima nos espaços acadêmicos brasileiros, portugueses e de outros lugares que são referência em estudos de literaturas africanas atesta um fato: a qualidade elevada do gesto da poeta, tanto em termos estéticos quanto culturais e políticos. Num primeiro plano, uma operação artesanal da linguagem poética, que a despoja de artifícios retóricos, supérfluos, que a condensa, objetiva e intensifica sua eficácia comunicativa. E, num segundo plano, todo um escopo épico a projetar cada poema para muito além e aquém de um mero artefato artístico, escritural, a instaurar um processo de rememoração hermenêutica, interpretativa, da história de São Tomé e Príncipe. Os 28 trabalhos deste livro nos dão a grata oportunidade de perceber especialmente o cuidado com que a poeta se acerca da matéria histórica, da esfera pública, comum, da praça. O estatuto de criadora não é, para ela, um atestado para modular a história são-tomense ao seu bel prazer, reduzi-la às suas interpretações. Conceição Lima talha o poema sutilmente na matéria histórica, instaura, em meio a fatos vivenciados ou conhecidos, a sua narrativa sobre São Tomé e Príncipe, seu modo de ver, que é sempre terno, afetivo, uterino. Trata-se de um modo de ver a partir da mulher, da mãe, da avó, do mundo feminino. Esse modo tem na casa uma referência exterior, visível, mas tem no útero sua referência ainda mais importante, de singularidade, de “locus” de gestação de vida, de acolhimento fundamental, estruturante.
Ao revolver a história são-tomense, a poesia honesta, produzida com admirável senso ético, exibe camadas dolorosas, traumáticas. Lemos no poema “Os heróis”: “Os mortos que morreram sem perguntas / regressam devagar de olhos abertos / indagando por suas asas crucificadas”. E também lemos em “Mostra-me o sangue da lua”: “Mostra-me o sangue / o sangue e as veias da lua / quando as línguas decepadas / ressuscitarem / em Fernão Dias no mês de Fevereiro.” Todavia, este livro nos revela que a operação dessas camadas se dá de um modo a compreendê-las sem aceitá-las, tampouco esquecê-las. Compreender o sofrimento social, histórico, do povo são-tomense é o caminho que a poeta Conceição Lima encontra para reconciliar-se consigo mesma e com a história da sua ilha. Metaforicamente, essa reconciliação se desvela aqui como superação: “Quero-me desperta / se ao útero da casa retorno / para tactear a diurna penumbra / das paredes / na pele dos dedos reviver a maciez /dos dias subterrâneos / os momentos idos” (Mátria). A relação com a história se dá de modo altivo, desperto, porque passa pela casa, por uma dimensão concreta, material, por aquele espaço que corresponde a uma espécie de interioridade da história, à instância estruturante de “histórias menores”, para lembrar Dipesh Chakrabarty. Essa interioridade é metaforizada como útero, como dimensão acolhedora de um corpo mulher, como “locus” nascedouro, como fonte de vida. Isso, em termos da criação poética, constitui uma auto-redenção de um sujeito coletivo, histórico, pela via de uma afetidade familiar, o triunfo da maternidade originária africana em meio aos destroços produzidos pela paternidade colonialista européia.
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