A terceira publicação da Inmensa Editorial em Portugal chega às livrarias neste mês de junho. Trata-se do romance O almoxarife almaxerifado & seu glossário vira-latas, de João Henriques BarretoLima e (também) de Carlos Antônio Leite Brandão.
Isso mesmo: dois autores em um (ou vice-versa), parceiros simbólicos na construção da obra, uma parceria que pode ser percebida de vários modos: o primeiro como pseudônimo do segundo, este como autor e o outro como narrador etc. Seja como for, estamos diante de um jogo de autoria estruturante de um trabalho de escrita singular, capaz de envolver o leitor do início ao fim.
O almoxarife almaxerifado & seu glossário vira-latas é resultado de mais de década de dedicação de um dos nomes mais importantes do espaço acadêmico e cultural brasileiro nas últimas três décadas, referência fundamental em transdisciplinaridade, que é Carlos Antônio Leite Brandão.
Basta citar, para justificar sua importância, o primeiro Prêmio Jabuti – mais longevo e importante no espaço letrado brasileiro – que lhe foi atribuído ano passado na modalidade livro Acadêmico pelo seu ensaio Genealogia da cidade. Ele é Arquiteto, Doutor em Filosofia, professor e pesquisador da UFMG, uma das principais instituições de ensino superior da América do Sul.
Com um perfil algo renascentista, cujo pensamento arquitetônico ele explorou com maestria em um dos seus livros, Leite Brandão é múltiplo, transitando com desenvoltura pelos caminhos da arte e da ciência.
Poeta, ensaísta, ficcionista, dramaturgo com brilhante no legendário Grupo Galpão, ele tem vasta obra publicada que se distingue, especialmente, pelo ultrapassamento de limitações de vária ordem, a começar por aquelas de base cultural, que resultam em polarizações estanques que lamentavelmente alimentam preconceitos e intolerâncias por toda parte.
Seu romance, que aparece em Portugal antes de ser lançado no Brasil, dá a precisa dimensão de um criador transdisciplinar, que desconcerta a razão instrumental das coisas.
O almoxarife almaxerifado & seu glossário vira-latas expõe, na linha das grandes obras romanescas modernas, o caráter conturbado, fraturado, evidentemente inacabado da forma romance.
Em suas duas partes indicadas pelo título, a obra dispõe a representação da subjetividade atormentada pela falta do seu objeto de desejo, cuja sigla já coloca o sublime no limite do grotesco, já funde o alto e o baixo e aciona no leitor a predisposição tanto para o choro quanto para o riso: MH.
Tudo é muito sério na vida, mas tudo também é brincadeira, o pesaroso – o sofrimento de um amante – tem sua contraparte de jocoso, e essa proximidade é o que, no limite, denuncia a condição humana como… vira-lata.
O romance, que se afirma especialmente pela crise de identidade textual que exibe, podendo ser lido da perspectiva de vários tipos textuais, desvela-se em O almoxarife almaxerifado & seu glossário vira-latas como dispositivo de desnudamento da caninidade do humano, de um rebaixamento do ser, um arruinamento que vai às raias da animalidade.
O vira-latas, do ponto de vista da moralidade humana, não é mais um animal, um “pet” mimado, mas um sub-animal, uma sub-raça de uma supostamente verdadeira raça. O romance de Leite Brandão, sob o signo de João Henriques Barreto-Lima, pai de Lima Barreto, o escritor viralatizado pelas forças racistas do seu tempo, é um caso de crítica da razão humanista.
A decodificação de signos investidos de considerável opacidade, que é o que se pratica em todo glossário, é um recurso irônico de que “os” autor (sic), fonte ambígua de uma percepção aguda do real, lança mão para desfigurar o humanismo.
As imagens de vira-latas, que atravessam todo o glossário, logram objetivar uma espacialidade no livro, metaforizam lugares públicos urbanos onde vira-latas vivem seu abandono cotidiano, sempre escorraçados por aquelas e aqueles que se encarregam de zelar pela ordem supostamente justa das coisas.
Cada vira-lata é um Lima Barreto, um Arthur Bispo do Rosário, um desamparado pelos deuses e deusas, deixado ao deusdará em nome da razão humanista sacrifica os diferentes para garantir a suposta saúde da “civitas”, da cidade dita civilizada.
O grande romance coloca o tempo de sua produção em xeque, resulta de um mal-estar nesse tempo, é um processo crítico que se declara em sua “forma arquitetônica”, no sentido bahktiniano, visível. Isso é o que encontramos em O almoxarife almaxerifado & seu glossário vira-latas, e é o que a Inmensa Editorial, ao publicar este livro, deseja que o leitor português ou com acesso a produção literária em língua portuguesa possa comprovar.
Temos aqui um romance que extrapola a rotina romanesca no Brasil atual e, a partir de referências como Lima Barreto e Franz Kafka, instiga nossa idéia logocêntrica de humanidade.
Um romance para ler, sentir e pensar, que se enriquece ainda mais com um sensível prefácio de um ícone do exercício do pensamento crítico no Brasil : o escritor, ensaísta, tradutor e artista visual Evando Nascimento.